A Ganância do Poder e o Preço da Calçada
Porto Alegre, com suas ruas antigas e suas esquinas cheias de histórias, sempre foi um território disputado entre carros, pedestres, ambulantes, árvores e, claro, o poder público.
Mas nos últimos anos, algo mudou no ar — e não foi apenas o cheiro de gasolina cara. Foi a sensação de que cada centímetro de calçada, cada vaga de estacionamento, cada sombra de árvore virou moeda.
Os parquímetros chegaram com o discurso conhecido: organizar o trânsito, democratizar o uso das vagas, garantir rotatividade. Em teoria, soa justo. Grandes metrópoles têm espaço cada vez mais reduzido, e administrar esse espaço é parte do papel de qualquer prefeitura. Mas a prática, como sempre, tem suas curvas fechadas.
Porque há lugares onde a lógica da cobrança não se sustenta — e todo mundo sabe disso. Próximo a hospitais, por exemplo, onde o fluxo de carros não é capricho, mas necessidade. Onde idosos, pessoas com mobilidade reduzida, famílias aflitas e motoristas ansiosos disputam vagas não por conveniência, mas por urgência. Ali, a cobrança soa menos como gestão e mais como exploração. Como se a cidade dissesse: “Está doente? Pague. Está preocupado? Pague. Está desesperado? Pague mais um pouco.”
E enquanto isso, em paralelo, a velha figura do “flanelinha” segue firme, como se fosse parte do patrimônio cultural da cidade. Uma presença tão constante quanto os pombos da Praça da Matriz. O curioso é que, em vez de resolver o problema, o município chegou a discutir leis que, segundo reportagens, autorizariam a atuação desses guardadores informais. Uma contradição que muitos moradores apontam: se já existem categorias profissionais legalizadas — garagistas, guardadores de estacionamentos regularizados — por que transformar em “serviço” aquilo que sempre foi visto como informalidade?
O cidadão, que já paga impostos, taxas, licenças e tarifas, se vê agora entre dois mundos: de um lado, o parquímetro oficial, com seu visor digital e sua cobrança por minuto; do outro, o “flanelinha”, que não emite nota, mas cobra como se fosse sócio da rua. E no meio disso tudo, a sensação incômoda de que o espaço público — que deveria ser de todos — virou um balcão de negócios.
A crônica urbana de Porto Alegre parece escrita por mãos demais: a da prefeitura, a das empresas concessionárias, a dos “flanelinhas”, a dos motoristas, a dos comerciantes. Cada uma puxando a narrativa para um lado. Mas há um fio que costura tudo isso: a percepção de que a cidade, em vez de acolher, está cobrando entrada.
E talvez seja essa a grande pergunta que fica no ar, pairando sobre as vagas demarcadas e os carros espremidos: quando o poder administra, é serviço; quando exagera, vira ganância.
E como saber quando uma coisa termina e a outra começa?

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