top of page
Buscar

A Pressa

21 de ago.
2 min de leitura

A pressa sempre foi uma velha conhecida nossa. Na juventude, ela nos empurra pelas ruas como um vento impaciente, dizendo que o mundo é logo ali e que tudo precisa ser vivido antes que o sol se ponha. E nós acreditamos. Corremos. Pulamos fogueiras. Cantamos alto nas noites frias de São João, quando o “Padroeiro das Festas Juninas” parece sorrir para cada balão que sobe, teimoso, rumo ao céu.


Naquele tempo, a vida tinha cheiro de pinhão assado e quentão fumegante. A fogueira ardia como se fosse eterna, e nós também achávamos que éramos. As cantigas ecoavam sem pudor — “cai, cai balão, cai, cai balão aqui na minha mão” — e tudo parecia possível, até pisar em madeiras em brasas. A alegria era simples, imediata, quase infantil.


Mas o universo, esse velho relojoeiro, não para. E nós, que antes corríamos, começamos a caminhar. Depois, a andar devagar. E um dia percebemos que a pressa mudou de lado: já não é ela que nos empurra; somos nós que tentamos segurá-la pelo braço, pedindo que fique mais um pouco.


Os anos passam — silenciosos, mas certeiros — e aquela chama da mocidade vira brasa mansa. As festas continuam, claro, mas o entusiasmo se acomoda, como quem se senta na cadeira de balanço para ver o desfile da vida passar. E então, sem perceber, mudamos até as cantigas.


Nas noites juninas, já não pedimos que o balão caia na nossa mão. Agora rimos, meio nostálgicos, meio resignados, quando ecoa a estrofe que parece brincar com o tempo: “a pipa do vovô não sobe mais”.


E não é que sobe menos — é que já não há tanta pressa para fazê-la subir. A gente aprende que o céu continua lá, generoso, mesmo quando não o alcançamos.

Pura ironia, mas é assim que acontece.


Hoje, já participante ativo do bloco da saudade, tento atravessar uma avenida do meu bairro, e lá se vão minutos sem fim. A pressa dos motoristas supera a velocidade da minha visão. Todos, sem exceção, estamos escravizados pelo rodar sem fim dos ponteiros do relógio — somos escravos da engenharia — nossa pressa está associada ao visor que anuncia, segundo a segundo, o tempo da nossa extinção.


E então, quase conspirando contra o cosmos, digo bem baixinho, para que o tempo não escute:


“Não tenha pressa não.”


Porque, no fundo, envelhecer é isso: descobrir que a vida não precisa correr para ser grande. Que a fogueira continua acesa, mesmo que a chama seja outra. E que, às vezes, o maior gesto de sabedoria é simplesmente desacelerar — e deixar o universo passar devagarinho.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
O Mercado Público

Sempre que viajo, minha agenda inclui uma visita ao Mercado Público da cidade em que estou. É automático, um ato espontâneo que me leva a caminhar por entre bancas repletas de cores, sabores e aromas.

 
 
 
O Tempo Não Está Acabando

Hoje estava divagando sobre a vida e sobre tudo o que fizemos em nossa passagem por este plano. Fui tomado por uma ansiedade repentina enquanto minha mente percorria momentos vividos. Tantas alegrias,

 
 
 
Picumã (1)

A casa de madeira era pequena, com apenas duas peças: a cozinha e um cômodo adjacente que servia, ao mesmo tempo, de sala e dormitório. Nos rigorosos invernos dos campos do Sul, a família reunia-se em

 
 
 

Comentários


bottom of page