A Que Vai Com as Outras
Ela nunca soube exatamente quando começou a andar no passo dos outros. Um dia era o chá de boldo recomendado pela vizinha; no outro, o lilás decretado pela colega como “cor do ano”. E lá ia ela, engolindo infusões amargas e vestindo tons que não eram seus, só para não destoar.
Seguia porque era fácil, porque decidir cansava, porque as vozes alheias pareciam sempre mais seguras que suas próprias dúvidas. No grupo da família, bastou alguém dizer que dormir de meia atraía boas energias para que ela, que odiava pés abafados, fosse para a cama parecendo um pinguim — e ainda acordasse elogiando a experiência.
O mais curioso é que ela não era tola; só era… maleável. Flexível demais. Daquelas pessoas que preferem o conforto do coro ao risco de cantar uma nota sozinha. Até que, no trabalho, pediram que ela escolhesse entre dois projetos. Sem plateia, sem opinião terceirizada, sem manual de instruções. Ela travou. O mundo parou. O universo aguardou.
E então ela respirou fundo e escolheu. Por conta própria. Sem consultar ninguém, sem pesquisar no grupo da família, sem perguntar ao horóscopo.
No dia seguinte, quando perguntaram o motivo, ela respondeu com a serenidade de quem descobriu fogo:
— Porque eu quis.
O planeta continuou girando, mas ela não era mais a mesma. Talvez ainda siga os outros de vez em quando — velhos hábitos são teimosos —, mas agora sabe que pode escolher quando acompanhar e quando abrir trilha no mato sozinha. Para quem sempre foi “A que Vai com as Outras”, isso já é praticamente uma revolução.

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