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A Seta

21 de ago.
2 min de leitura

A evolução tem criado oportunidades nunca imaginadas para que o ser humano desenvolva suas capacidades intelectuais e criativas. Todos os dias, os noticiários anunciam avanços tecnológicos nas mais diversas áreas — medicina, comunicação, energia, transporte. Vivemos cercados de invenções que prometem facilitar a vida, ampliar horizontes, corrigir falhas.


Mas, ironicamente, o básico parece andar para trás. O elementar, aquilo que deveria ser natural, automático, está em regressão exponencial. É como se cada salto tecnológico empurrasse o ser humano um passo para fora da própria capacidade de pensar e reagir ao cotidiano.


Hoje, dirigindo pelas avenidas da capital, me deparei com cenas desconcertantes, quase surreais. A indústria automobilística produz veículos guiados por sistemas de altíssima precisão, sensores que enxergam mais do que os olhos humanos, algoritmos que calculam riscos antes que o motorista perceba o perigo.


E, ao lado dessa sofisticação, o comportamento humano parece cada vez mais primitivo. Não sei se por descuido, pressa ou pura irresponsabilidade, mas o hábito de não sinalizar a conversão — esse gesto simples, quase um pedido de licença — virou regra.


Nas vias esburacadas onde o tráfego, já é difícil por si só, o desafio aumenta quando o motorista à frente decide mudar de faixa como quem muda de ideia: sem aviso, sem seta, sem sequer imaginar que existe alguém atrás tentando decifrar suas intenções. Aquele pequeno objeto piscante, chamado seta, pisca-pisca ou lanterna, dependendo da região, tornou-se peça decorativa.


E o mais irônico é que a seta não exige interpretação. Ela aponta. Ela indica. Ela comunica. É o símbolo máximo da simplicidade: piscar significa ir para um lado. Não piscar significa continuar.


Mas parece que o ser humano perdeu o senso de direção — não apenas o geográfico, mas o simbólico. A seta virou metáfora de algo maior: a incapacidade de sinalizar intenções, de comunicar o óbvio, de perceber o outro.


Talvez o problema não seja a tecnologia avançando rápido demais. Talvez seja o ser humano ficando para trás.

 
 
 

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