A Tarde Que Fiquei Triste
Era uma tarde qualquer.
Daquelas em que o céu parece ter esquecido como se faz azul. A chuva caía fina, persistente, como se lavasse lentamente os restos de um verão que já não voltaria.
Na casa da praia, cercado pelo som das ondas e pelo silêncio das lembranças, divagava sobre o mundo, sobre o tempo que passa sem pedir licença.
Pensava na velhice que se aproxima sorrateira, nas amizades que resistem — ou não — ao desgaste dos dias. A vida, naquele instante, parecia um livro cujas páginas estavam se desfazendo entre os dedos.
Foi então que ouvi o lacônico sinal do celular. Uma notificação entre tantas outras, quase sempre irrelevantes. Abri a mensagem: “Bom dia!!!” Tão simples. Tão comum. Mas naquele contexto, carregava um peso inesperado.
O que parecia apenas mais uma saudação digital escondia, nas entrelinhas, o fim de uma caminhada. A mensagem seguinte era clara, seca, definitiva. Uma amizade antiga, daquelas que pareciam eternas, estava se desligando dos laços que nos uniram por tanto tempo. Não havia mais interesse, nem desejo de perpetuar o que um dia foi tão caro. O tom não deixava dúvidas: havia descontentamento, talvez dúvidas, talvez apenas cansaço.
Doeu. Doeu como só dói aquilo que um dia foi verdadeiro. Meu corpo foi tomado por uma letargia estranha, como se a tristeza tivesse peso físico. Fiquei ali, imóvel, ouvindo a chuva bater no telhado, como se cada gota fosse uma lembrança se desfazendo.
Refleti. Concluí. Não vale a pena. O elo estava desfeito.
Toda a grandeza e alegria daquela amizade se pulverizou. Nada ficou que pudesse me afastar daquela tarde cinzenta, em que meu mundo ficou mais triste.
E assim, naquela casa de praia, entre o som do mar e o silêncio da despedida, compreendi que algumas perdas não fazem barulho — mas ecoam para sempre.

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