A Vacina
Desde muito cedo me ensinaram que vacina era um “mal necessário”. Não havia escolha, não havia debate. Havia fila. Uma fila comprida no pátio da escola primária, onde crianças inquietas esperavam por um instrumento de metal que parecia mais uma geringonça de ficção científica do que algo feito para proteger. Nada de agulhas delicadas: era ferro, pressão e um líquido misterioso que doía, deixava marca, dava febre. E a gente seguia brincando, porque criança não tem tempo para drama prolongado.
Sobrevivemos. Crescemos. E aqui estou, na velhice, assistindo ao país transformar a vacina em campo de batalha. É curioso: aquilo que antes era só rotina virou bandeira, virou trincheira. Não me oponho a quem pensa diferente — cada um sabe de si — mas ainda me soa estranho ouvir que vacina faz mal, como se décadas de ciência coubessem numa frase de rede social.
O Brasil, com seus 213,4 milhões de especialistas instantâneos, virou um grande laboratório de debates intermináveis. Não sobre vírus, mas sobre convicções. Não sobre imunidade, mas sobre identidade. A vacina, coitada, virou metáfora. Virou símbolo. Virou arma.
E assim seguimos, discutindo não apenas o que entra no braço, mas o que entra na cabeça. Talvez por isso eu acredite que, nas próximas eleições, o destino da nação não será decidido apenas na urna, mas na vacina — essa vacina simbólica que cada um escolhe aceitar ou rejeitar, não no posto de saúde, mas no território invisível das crenças.
E eu sigo rindo, não por desdém, mas por experiência: quem já enfrentou aquele injetor metálico da escola primária não se assusta com debate nenhum.

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