Aquela Bermuda Lee
O ano era 1966, às margens do rio Guaíba — uns insistem que é lago, mas eu sigo fiel ao que aprendi na escola: é rio, e ponto final. Essa discussão fica para outro dia. Naquele tempo, as rádios tocavam uma canção italiana sobre um rapaz que amava Beatles e Rolling Stones, e parecia que o mundo inteiro vibrava junto com ela.
Mas o que importa aqui é ela: a gloriosa, lendária, épica bermuda de jeans que um dia foi calça. E que calça.
Minha infância foi excelente, daquelas que só pobre entende: diversão barata, amigos barulhentos e criatividade sem limites. Mas, no meio dessa simplicidade toda, eu alimentava um sonho ousado, quase um delírio juvenil: vestir uma calça Lee, daquelas “made in USA”. Coisa de adolescente que enxerga o mundo com olhos maiores que o bolso.
A jornada para consegui-la foi longa. Economias, esperas, pequenos obstáculos que pareciam enormes. Até que um dia ela chegou: a tão desejada Lee. Vivi anos dentro dela. Festas, reuniões dançantes, amores. Ela acompanhou cada passo, cada descoberta, cada exagero da juventude.
Como tudo na vida, a calça também encerrou seu ciclo. Mas não sem antes renascer — virou bermuda. E, assim, tornou-se o último fio da minha juventude. O último cheiro de verão, de namoradinhas, de tardes longas que pareciam não ter pressa de acabar.
Com aquela bermuda, eu ainda consegui visitar lugares onde nunca pisei, mas que vivi intensamente na imaginação: Woodstock, Liverpool, os palcos onde Janis Joplin gritava sua dor e os Beatles reinventaram o mundo. Eu estive lá — ou pelo menos me senti lá — e a Lee era meu passaporte.
No fim das contas, talvez seja isso que a gente veste de verdade: não o tecido, mas os sonhos.

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