As Donas da Esquina
Na esquina da Avenida Farrapos, onde o asfalto já cansou de ouvir promessas e buzinas, elas estão lá. Firmes. Impecáveis. De salto alto e olhar afiado, enfrentam o frio, o calor e o julgamento alheio com a mesma maquiagem resistente que desafia até a chuva de verão.
São chamadas de muitas coisas — algumas gentis, outras nem tanto. Mas ali, entre um poste e outro, elas são rainhas do improviso, mestras da sobrevivência, doutoras em psicologia relacional (sem diploma, mas com vasta experiência de campo).
— Boa noite, amor. Vai querer companhia ou só um elogio? — diz uma delas, com um sorriso que mistura charme e ironia.
Não vendem só prazer. Vendem escuta, vendem fantasia, vendem o que o mundo anda carente: atenção. E tudo isso por míseros trocados que mal pagam o batom, mas sustentam o aluguel, o leite das crianças e, às vezes, o sonho de um futuro diferente.
Entre uma abordagem e outra, trocam confidências como quem troca figurinhas raras. Falam de clientes, de filhos, de novelas, de política e de sapatos desconfortáveis. Riem alto, como quem já chorou demais. E quando a madrugada esfria, dividem o casaco, o cigarro e até o lanche.
São invisíveis para quem só vê vitrines. Mas para quem enxerga além da vitrine da vida, são personagens centrais de uma cidade que finge não conhecê-las, mas que não seria a mesma sem elas.
Porque há quem trabalhe de terno e gravata, e há quem enfrente a noite com salto e coragem. E essas meninas — de vida nada fácil — são as cronistas silenciosas das esquinas, onde a cidade revela sua face mais crua, mais real, e, por vezes, mais humana.

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