Caleidoscópio
O mundo começou a girar diante de mim numa tarde qualquer, dessas em que a luz entra pela janela como quem não pede licença. Eu estava distraído, talvez cansado demais para perceber que algo em mim também girava. Foi então que, sem aviso, tudo se tornou um grande caleidoscópio — com suas cores imprevisíveis e seus estilhaços de memória.
Cada movimento, por menor que fosse, reorganizava o cenário. As coisas que eu julgava sólidas se desfaziam em fragmentos luminosos, e outras, que eu nunca tinha notado, surgiam com uma nitidez quase insolente. Era como se o mundo insistisse em me mostrar que nada permanece igual por muito tempo.
Enquanto observava esse turbilhão íntimo, percebi que não era apenas o mundo que mudava. Eu também me via multiplicado em versões que se contradiziam e se completavam. Havia o eu que acreditava saber de tudo, o que fingia não sentir nada, o que sonhava alto demais, e aquele que só queria um pouco de silêncio. Todos coexistiam ali, refletidos como espelhos quebrados que, mesmo partidos, ainda guardam a verdade de um rosto.
Foi nesse instante que me perguntei o que era real e o que era ilusão. Mas a resposta veio simples, quase óbvia: no fundo, tudo era coração. Tudo era tentativa. Tudo era esse movimento contínuo de se reinventar, mesmo quando a gente não percebe.
A vida, percebi, é um prisma inquieto. Não aceita ficar parada, não tolera a monotonia. E talvez seja justamente isso que a torna tão fascinante. Há poesia na confusão, há sentido nas distorções, há intensidade nos momentos em que tudo parece fora do lugar.
Fechei os olhos por um instante, deixando que o caleidoscópio interno se acomodasse. Quando os abri, o mundo continuava girando — mas agora eu girava junto, sem medo de me perder nas cores que surgiam. Afinal, algumas coisas só fazem sentido quando vistas em movimento.

Comentários