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Cerração

10 de out.
2 min de leitura

No Rio Grande do Sul, a neblina resolveu adotar um nome mais elegante e misterioso: cerração. E convenhamos, combina muito mais com o personagem. Afinal, "neblina" parece algo que aparece discretamente. Já "cerração" chega ocupando tudo.


Nos meses de inverno, ou naqueles dias abafados que prometem chuva e entregam indecisão, ela surge silenciosamente. Quando percebemos, ruas, campos, árvores e até o vizinho fofoqueiro da esquina desapareceram atrás de um gigantesco lençol branco.


A sensação é de ter sido transportado para a Londres dos filmes de suspense. Falta apenas um investigador de sobretudo caminhando lentamente entre sombras, desconfiando de cada esquina. Não é à toa que essa atmosfera lembra os cenários ligados às histórias de Jack, o Estripador. Entre becos, postes e silhuetas indefinidas, qualquer gato vira suspeito e qualquer arbusto parece esconder um segredo sombrio.


Os escritores adoram uma boa névoa. Edgar Allan Poe1 certamente sabia disso. Quando queria inquietar seus leitores, bastava cobrir tudo com uma camada de mistério. E funcionava. Afinal, poucas coisas provocam mais imaginação do que não enxergar claramente o que está diante dos olhos. Um tronco vira fantasma. Uma vaca distante vira monstro. E um amigo caminhando na direção certa pode parecer uma assombração.


Mas a cerração não vive apenas de fama literária. Ela também gosta de causar pequenos transtornos. Reduz a visibilidade, atrasa viagens e ainda interfere em algumas atividades agrícolas. É como aquela visitante inconveniente que chega sem avisar, toma conta da casa inteira e só vai embora quando bem entende.


Ainda assim, existe algo fascinante nesse espetáculo. Ao amanhecer, quando morros, campos e estradas desaparecem sob o véu branco, a paisagem gaúcha parece entrar em modo suspense. O mundo fica temporariamente sem contornos definidos, como se alguém tivesse apagado parte do cenário.


Porém aos poucos, as árvores reaparecem, as estradas voltam a existir e os fantasmas voltam a ser apenas troncos, vacas ou o vizinho caminhando para comprar pão.

 

1 Edgar Allan Poe (nascido em Boston, Massachusetts, EUA), foi um escritor, poeta, crítico e editor americano, famoso por sua exploração do mistério e do macabro. Seu poema "O Corvo" (1845) está entre os mais conhecidos da literatura.


 
 
 

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