Chuva na Vidraça
A chuva cai mansa na vidraça, desenhando caminhos tortos que se encontram, se separam, se perdem. Lá fora, as folhas de outono navegam pela sarjeta como pequenas caravelas, cada uma seguindo seu próprio destino, empurrada pelo vento, pela água, pelo acaso. O telhado responde com seu tamborilar antigo, um som que parece vir de outras épocas, enquanto os pardais fazem algazarra na laranjeira, como se comemorassem a festa que só eles entendem.
E então a memória se abre.
Recordo quando eu era moleque correndo pelas ruas do bairro, o corpo encharcado e a mente leve, habitada apenas pelas despreocupações da infância. Não havia dores nem sobressaltos; a vida escorria mansa. Os pés batiam no chão e levantavam ondas agitadas, como se eu tivesse o poder de comandar mares inteiros. O sorriso vinha fácil, como se a alegria fosse o estado natural das coisas.
Não havia dores. Não havia pressa. Não havia o medo que hoje se esconde nos cantos da vida adulta. A maldade era apenas o dragão das histórias infantis, sempre derrotado no final. A gente acreditava que o mundo era grande e bom, e que bastava correr mais um pouco para alcançá-lo.
Agora, sentado na sacada do apartamento, observo a mesma chuva — mas ela cai diferente. A água escorre pela vidraça e, junto com ela, escorrem lembranças que se chocam umas nas outras, formando um turbilhão silencioso. Cada gota parece carregar um fragmento de quem fui, de quem deixei de ser, de quem ainda tento reencontrar.
A chuva tem esse poder: devolve o passado em pequenas doses, como quem oferece um gole de algo antigo, forte e doce. E eu bebo devagar, para não desperdiçar.
Recordar é um bom sentimento. É como ouvir uma música que a gente não sabia que lembrava, mas que, ao tocar, encaixa perfeitamente no peito. É perceber que, apesar de tudo, ainda existe dentro de nós aquele menino correndo descalço, espalhando água, acreditando que o mundo era simples.
Talvez ele ainda esteja certo.

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