Crônica do Velho
Ninguém sabia ao certo quando ele começara a ocupar aquele banco. Para muitos, o velho sempre estivera ali, como um marco silencioso da praça, tão permanente quanto as árvores que a cercavam. Chovesse ou fizesse sol, lá estava ele: o corpo arqueado, as mãos pousadas sobre o bastão gasto, o olhar perdido em algum ponto que ninguém mais conseguia enxergar.
Eu o via todos os dias no caminho para o trabalho. No início, era apenas uma figura curiosa, um detalhe da paisagem. Mas com o tempo, comecei a notar que havia algo diferente na maneira como ele observava o mundo. Não era o olhar de quem espera; era o olhar de quem recorda.
Seu rosto era um mapa de sulcos profundos, traçados pelo tempo com a precisão de quem escreve uma história longa demais para caber em palavras. Às vezes, quando o vento soprava mais frio, uma lágrima escorria devagar por aqueles vales. Não era tristeza — era memória. Uma memória tão antiga que parecia não pertencer mais ao corpo que a carregava.
Certa manhã, movido por uma curiosidade que já me acompanhava há semanas, sentei-me ao seu lado. Ele não se virou. Apenas continuou olhando para o horizonte, como se esperasse que o dia revelasse algo que só ele sabia decifrar.

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