Espoletas
Cresci num tempo de inocência em que tudo era possível, pois conhecíamos os limites.
Brincávamos de Forte Apache. Transformávamos quintais nas vastidões do Velho Oeste, vestidos a caráter, ao melhor estilo John Wayne. Atirávamos em malfeitores, encurralávamos "comanches e apaches" e, por certo, muitas vezes saíamos feridos pelas flechas de "Touro Sentado". Morríamos muitas vezes. Ressuscitávamos sempre.
Éramos crianças simplórias, portando nossos revólveres "Estrela", cujo calibre disparava sonhos. Nenhum tiro derrubava homens; atingia apenas fantasias. Vivíamos da ilusão consentida de sermos Roy Rogers, Bat Masterson, Gene Autry e tantos outros.
As armas reluzentes que eu portava no cinturão, decorado com franjas de couro, tinham o tambor rotativo onde inseríamos rolinhos de “espoletas”, pequenas centelhas de felicidade embrulhadas em papel vermelho. A cada disparo, o ar ficava impregnado pelo cheiro de pólvora queimada.
Então eu saía em defesa dos injustiçados. Enfrentava bandidos sem rosto, salvava cidades inventadas e restaurava ordens que só existiam dentro da minha cabeça de menino, cheia de sonhos, travessuras e ingenuidade.
Hoje percebo que aqueles revólveres jamais dispararam contra ninguém. Atiravam apenas contra o tempo, numa tentativa inocente de prolongar a magia daqueles dias de justiceiro.
The End...

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