Eu Sempre Soube
Horácio era homem do campo. Mestiço, de poucas palavras, fumava palheiro, domava cavalos como poucos e carregava no olhar uma desconfiança antiga. Vivia recluso nas lidas da estância e, embora evitasse demonstrar sentimentos, guardava um segredo que o consumia.
Numa manhã qualquer, encilhou o cavalo, ajuntou as tralhas e o pelego tubiano¹. Despediu-se dos companheiros e partiu.
Levava consigo a imagem de Izadora: os olhos negros, os cabelos escorridos pelos ombros e o perfume que insistia em povoar seus pensamentos. Mas ela era esposa do patrão, homem justo, amigo e dedicado à família. Por isso, durante anos, Horácio sufocou o que sentia.
Da janela da casa grande, Izadora observava a poeira da partida quando uma mão pousou sobre seu ombro.
Era o marido.
— Foi embora.
Ela apenas concordou com a cabeça.
O homem retirou do bolso uma carta amarelada.
— Encontrei isso entre os arreios do cavalo dele. Nunca teve coragem de entregar.
Com as mãos trêmulas, Izadora abriu o papel. Havia apenas uma frase:
"Perdoe este vivente por amar quem nunca deveria amar."
O silêncio pesou sobre a sala.
Então o marido olhou para o horizonte e disse:
— Eu sempre soube.
Surpresa, Izadora o encarou.
— E nunca disse nada?
Ele sorriu com tristeza.
— Porque ele foi mais honrado comigo do que muitos amigos que tive.
Lá fora, Horácio desaparecia além das coxilhas.
Com os olhos marejados, Izadora sussurrou:
— Deus... será o que ouço é o que vejo?
Pela primeira vez, era.
¹ Tubiano: pelego de pelagem malhada, tradicional nas lidas campeiras do sul do Brasil.

Comentários