Frio no Polo Sul
O dia nasceu com a respiração curta do inverno. Aqui no Sul, o frio não chega: ele se instala. Entra pelas frestas da casa como quem conhece o caminho, desliza pelas paredes, toca a pele com a precisão de uma lâmina recém-afiada. Há um silêncio branco na manhã, um silêncio que dói.
É nesse instante que a memória se abre, como porta antiga rangendo no vento. Volto à infância — à casa humilde, ao chão de tábuas que guardava segredos de noites longas, ao estudante pequeno que eu era, caminhando para a escola com a coragem que só as crianças pobres carregam sem perceber.
O gramado amanhecia branco, um algodão frio cobrindo a terra. Havia beleza ali, mas uma beleza que mordia. Sob aquele véu gelado, escondiam-se as durezas que a manhã não tinha pudor de revelar. Meus pés, enfiados em tamancos de madeira, sentiam cada estalo do gelo. A tira de couro, rígida, parecia zombar da pele. Os dedos, encolhidos, davam a impressão de que se quebrariam ao menor descuido.
E, no entanto, caminhava. Caminhava porque era assim que se vivia. Porque a vida, naquela época, não perguntava se estávamos prontos — apenas seguia.
Hoje, depois de tantos invernos, percebo que há uma espécie de bravura silenciosa em quem nasce aqui. Uma resistência que não se aprende: se herda. O frio nos molda, nos afia, nos ensina a suportar o que vem sem aviso.
A saudade, quando chega, também vem fria. Mas é um frio diferente — um frio que aquece. Ela acende lembranças como brasas no fogão a lenha, e cada cena antiga ilumina a alma com uma claridade que não se apaga.
E assim, no meio da manhã gelada, descubro que o frio da saudade é, paradoxalmente, o que mais me aquece.

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