Maria Fumaça
Há coisas que a gente não conta para muita gente. Não porque sejam segredos, mas porque moram num lugar tão delicado da memória que dá medo de estragar ao tocar. A Maria Fumaça é uma dessas coisas minhas — dessas que vivem entre o peito e o silêncio.
Lembro-me, ainda muito pequeno, de estar dentro de um daqueles vagões de madeira. As imagens são vagas, como fotografias antigas meio desbotadas, mas ainda assim carregadas de afeto. Os bancos forrados de couro, o balanço suave da composição, o trocador passando com seu perfurador de bilhetes — tec, tec, tec — e a paisagem se abrindo pelas janelas como um filme que só existia para quem estivesse ali.
Depois veio o trenzinho de lata, no Natal. Colorido, barulhento, meio torto. Mas era meu. E eu o fazia rodar pela casa inteira, como se pudesse recriar, na sala, a emoção que eu ainda não sabia nomear. Acho que foi ali que percebi que algumas paixões não se escolhem — elas simplesmente acontecem, como um sopro.
Na adolescência, quando os sentimentos começam a ganhar forma, fiz uma viagem de Maria Fumaça com minha namoradinha. Fomos a Rio Pardo, terra da minha mãe. Lembro do jeito como ela segurou minha mão quando o trem começou a andar. Lembro de pensar que talvez o amor fosse isso: duas pessoas balançando juntas no mesmo trilho.
Às vezes acho que minha obsessão por trens é saudade. Outras vezes acho que é só o menino que fui ainda sentado naquele banco de madeira, esperando que o mundo passe devagar para poder vê-lo melhor. E tem dias em que penso que é tudo isso junto — mais os faroestes das matinês nos domingos, mais o cheiro da fumaça, mais o barulho do ferro, mais o que não sei dizer.
A Maria Fumaça, para mim, não é máquina. É espelho. É memória que respira. É o lugar onde guardo o que não sei dizer em voz alta.

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