Minha Rua
Minha rua respira comigo.
É um fio de pedra antiga, torta e teimosa, onde o tempo se deita sem pressa. Nos seus calçamentos irregulares, guardam‑se passos que já não lembro, mas que ela, sábia e silenciosa, nunca esqueceu.
À sombra das árvores frondosas, a vida sempre se ajeitou. O burburinho das crianças — ah, esse som que nunca envelhece — mistura-se ao canto dos sabiás, que começam o dia antes do sol e o terminam quando a noite já se espreguiça. As caturritas, em sua algazarra verde, fazem das palmeiras um palco, e minha rua, paciente, aplaude.
As velhas vizinhas, eternas guardiãs dos portões, trocam receitas, memórias, confidências que o vento leva mas que o coração devolve.
Há um aconchego nesse cotidiano que não se compra, um prazer simples que se aprende vivendo.
Aqui cresci. Aqui meus filhos nasceram. Aqui amei, sonhei, perdi e recomecei.
Os verões mormacentos me ensinaram a lentidão, os outonos dourados me ensinaram a despedida, os invernos cortantes me ensinaram a resistência, e a primavera — sempre ela — me ensinou a renascer.
Da minha janela, quando o ipê amarelo explode em ouro, parece que o mundo inteiro se ilumina só para mim. E então, num suspiro, desejo voltar ao passado, tocar com as mãos os instantes que escaparam, rever rostos, risos, silêncios, recontar histórias que ficaram pelo caminho.
Minha rua tem nome, mas carrega mil identidades. É mãe, é abrigo, é testemunha. Acolheu meus passos incertos, meus sonhos desajeitados, minhas dores que eu escondia até de mim. E, ainda assim, me ofereceu descanso.
Minha rua, tu és o lugar onde a vida se fez casa.
E, mesmo quando eu partir, sei que continuarei morando em ti.

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