O Antisséptico
O “Antisséptico” cumpria bem sua missão: desinfetava cortes, eliminava bactérias, afastava infecções. Só não dava conta das outras dores — aquelas que não surgiam na pele, mas lá dentro, onde ninguém via.
Parecia ter sido criado por alguém que acreditava que personalidade se construía na base do grito. E o mais curioso é que, naquela época, os adultos aplicavam o tal “Antisséptico” com uma serenidade. Chegavam com o frasco vermelho como quem exibe um troféu. A gente entendia na hora: se ele aparecia, a situação ia piorar antes de melhorar.
O ritual era sempre o mesmo: examinar o machucado, garantir que “não vai doer” e, claro, provocar uma ardência capaz de fazer a gente reconsiderar todas as escolhas da vida.
E não era só o “Antisséptico”.
Crescemos cercados por remédios que hoje seriam proibidos — e sobrevivemos. Talvez por isso sejamos tão resistentes: fomos temperados no fogo daquele frasco vermelho.
Hoje, o “Antisséptico” não arde mais. Parece falso, versão genérica, como se tivessem removido a parte mais dramática da história. Talvez seja apenas a vida mostrando que evoluiu: agora dá para cuidar sem torturar.
Mesmo assim, admito: às vezes sinto falta daquele frasco.
Não da ardência — ninguém é tão maluco — mas da certeza de que, depois de gritar, chorar e espernear, a gente se levantava, enxugava as lágrimas, soprava o joelho e voltava a brincar como se nada tivesse acontecido.
Porque, no fundo, o “Antisséptico” era isso: um pequeno incêndio que ensinava que a vida segue adiante.

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