O Fardo da Infância
Eu fui criança. Fui moleque. Como qualquer menino, corri pelos becos, rabisquei muros e testei os limites entre travessura e irresponsabilidade. Mas nunca, nunca pensei que poderia carregar a marca de um carrasco.
Era uma manhã como qualquer outra. O varal tremulava ao vento, segurando com firmeza as roupas lavadas por minha mãe—o sustento de nossa casa humilde dependia daquelas peças bem cuidadas. E ali, entre fios estendidos e brisas suaves, pousou um pequeno beija-flor.
Na inocência da infância, a “funda” (1) ou bodoque era mais que um objeto — era extensão de um espírito aventureiro e inconsequente.
Pequenas esferas de cinamomo ou seixos eram lançadas sem grande reflexão, atingindo alvos que, em sua fragilidade, não compreendiam a brutalidade de um gesto tão impulsivo.
Mas naquele dia, a brincadeira perdeu seu nome. O disparo ecoou como sentença. O arame do varal vibrou como um sino fúnebre, e o pequeno beija-flor, indefeso diante da força invisível, tombou.
Não houve tempo para reverter o destino cruel.O arrependimento veio em ondas.
A infância, que até então carregava cores vivas e alegrias despreocupadas, escureceu.
Os dias perderam sabor, e o peso da culpa transformou-se em lamento silencioso.
Nunca consegui justificar o ato. Nunca houve esquecimento. Apenas a certeza de que, naquele instante, eu deixei de ser apenas uma criança travessa e passei a entender o peso das consequências.
A tristeza daquele dia nunca se desfez, e até hoje, choro por ti, beija-flor.
1 - Funda é um objeto presente na cultura popular, especialmente entre crianças e adolescentes de décadas passadas, que o utilizavam como uma espécie de "arma" rudimentar para acertar alvos. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o termo "funda" é mais comum, enquanto "bodoque" é amplamente utilizado em outras partes do Brasil.

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