top of page
Buscar

O Figurino da Mentira Veste Roupa de Verdade

20 de ago.
2 min de leitura

Outro dia me peguei pensando que a mentira anda mais arrumada do que muita gente por aí. Sai de casa perfumada, alinhada, com aquele ar de quem sabe exatamente para onde vai. E nós, distraídos, seguimos rolando a tela como quem passeia pela vitrine de um shopping: olhando tudo, absorvendo nada.


A informação, que já foi artigo de luxo, virou poeira fina. Está em todo lugar, entra pelos olhos, pelos ouvidos, pelos cantos da casa. A gente respira notícia como quem respira ar poluído: sem perceber o que está entrando, só sentindo o peso depois. E no meio dessa névoa, surgem as frases motivacionais — essas pequenas almofadas de conforto que as redes sociais insistem em jogar no nosso colo. “Você é capaz”, “Acredite nos seus sonhos”, “Tudo acontece por um motivo”. A gente lê, dá um like automático e segue adiante, como quem passa por um outdoor repetido na estrada. Já nem repara.


As notícias, então, parecem sombras de si mesmas. Surgem por toda parte com a mesma cara, mudando apenas o disfarce. Basta um título mais chamativo ou uma vírgula fora do lugar para criar a sensação de novidade. No fim, porém, é o mesmo fato repetido e requentado, como se a repetição fosse sinônimo de relevância.


E é nesse cenário que a mentira encontrou seu palco. Não entra mais pela porta dos fundos, tímida. Agora desfila. Ganhou nome bonito: “narrativa alternativa”, “versão não confirmada”, “outra perspectiva”. É quase elegante. E o mais curioso é que arruma defensores fervorosos, gente que a abraça como quem encontra uma velha amiga. Afinal, a mentira tem uma qualidade sedutora: ela se molda ao que queremos ouvir.


A verdade, coitada, virou uma senhora inconveniente. Fala alto, exige atenção, pede que a gente pense — e pensar, hoje em dia, parece esforço demais. Muita gente prefere a mentira confortável, aquela que encaixa direitinho nas crenças já instaladas, que alimenta medos antigos, que dá razão às indignações de estimação.


No fim das contas, talvez o que esteja faltando seja justamente o intervalo. A pausa entre um scroll e outro. O silêncio onde a dúvida pode respirar. Porque, em tempos de excesso, pensar virou quase um ato de rebeldia. E duvidar, então, é quase revolucionário.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
O Mercado Público

Sempre que viajo, minha agenda inclui uma visita ao Mercado Público da cidade em que estou. É automático, um ato espontâneo que me leva a caminhar por entre bancas repletas de cores, sabores e aromas.

 
 
 
O Tempo Não Está Acabando

Hoje estava divagando sobre a vida e sobre tudo o que fizemos em nossa passagem por este plano. Fui tomado por uma ansiedade repentina enquanto minha mente percorria momentos vividos. Tantas alegrias,

 
 
 
Picumã (1)

A casa de madeira era pequena, com apenas duas peças: a cozinha e um cômodo adjacente que servia, ao mesmo tempo, de sala e dormitório. Nos rigorosos invernos dos campos do Sul, a família reunia-se em

 
 
 

Comentários


bottom of page