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O Menino do Pastel

20 de ago.
2 min de leitura

Os primeiros anos como servidor público foram marcados por desafios e aprendizados. O salário enxuto exigia adaptações e escolhas simples para o dia a dia. O almoço, por exemplo, era um ritual diário na lanchonete da esquina da Ladeira com a Rua da Praia, de frente para a Praça da Alfândega, onde a cidade fervilhava com lojas sofisticadas, galerias de arte e cinemas no auge – Imperial, Guarany. Um cenário vibrante, onde mulheres e homens circulavam com feições hollywoodianas, elegância e um brilho peculiar no olhar.

Ali, pontualmente ao meio-dia, eu saciava minha fome com um pastel imenso, massa fresca aberta sobre uma pedra de mármore, recheado com carne bem temperada, tempero verde e um ovo inteiro, para facilitar a digestão uma garrafa de vidro de Pepsi-Cola, o refrigerante da época, servida gelada, completando aquele instante de pausa.

Mas naquele mesmo lugar, em meio à rotina e ao sabor do pastel quente e crocante, vivi uma das cenas mais dolorosas que já senti. Do outro lado do vidro do balcão, enquanto eu permanecia sentado num banco de couro gasto pelo uso constante, vi um menino de rua – de ascendência africana, como tantos que perambulam pelas avenidas do país – olhando fixamente para o pastel que eu consumia. Seus olhos carregavam um desejo puro, uma fome que fazia seus lábios se moverem como se mastigasse um pastel imaginário, acompanhando minhas mordidas. Naquele olhar, havia uma tristeza inocente, um silêncio pesado.

Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. A fome e o abandono de um ser humano são dores que transcendem a lógica. Sabendo que o proprietário da lanchonete não gostava de pedintes em sua porta, chamei-o discretamente e pedi que fritasse um pastel e servisse ao menino ali mesmo, ao meu lado. Foi o mínimo que pude fazer por aquela alma inocente, uma tentativa de aliviar, ainda que momentaneamente, uma injustiça que não deveria existir.

Até hoje, quando lembro daquela cena, as lágrimas voltam e compreendo um pouco mais sobre as dores do mundo. E me pergunto: onde estará aquele menino?

 
 
 

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