O Mundo ao Avesso
Nos dias atuais, é difícil compreender certas atitudes humanas. Caminhando pelas ruas do meu bairro, deparei-me com uma moça de uns vinte anos. A jovem, de curvas marcantes — impossível não notar — tentava atravessar a avenida movimentada. O fluxo intenso de veículos, impiedoso como a própria cidade, não lhe permitia avançar.
Agitava-se, inquieta, como se o mundo inteiro a empurrasse para o outro lado da rua. Talvez fosse o trabalho que não perdoa atrasos, o ônibus que não espera, o medo de perder o dia, o emprego, a chance. Talvez fosse apenas o hábito de viver correndo — esse vício social que nos ensinaram desde cedo, como se a vida fosse uma linha de chegada que nunca alcançamos
Parei para observar a cena, que me devolveu a um pensamento que sempre me assombra: por que tanta pressa? Para onde vão? Por que vão? Estão sempre atrasados, ou apenas acreditam que estão?
Enquanto eu observava — não por indiferença, mas porque já aprendi que a pressa não me serve — a moça permanecia ali, imóvel sobre o asfalto, negaceando1 um espaço entre os carros, tentando existir num intervalo mínimo entre máquinas e urgências.
E eu, já sem a pressa da juventude — afinal, quanto mais demora, mais tempo permaneço por aqui — apenas concluí, em silêncio: realmente, o mundo está ao avesso.
1 Negaceando: Esquivar-se, desviar-se com astúcia de algo ou alguém.

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