top of page
Buscar

O Peste

21 de out.
2 min de leitura

Ele era gordo, rosto sardento, cabelos cor de fogo, calçava tênis com os cadarços sempre soltos e adorava atirar pedras nas vidraças alheias. Fora o horário em que os professores da escola tinham de suportar suas travessuras, andava pelas ruas do bairro arrumando confusão. Ora corria atrás dos gatos da vizinhança, ora surrupiava laranjas da quitanda do seu Alfredo.


Um dia ganhou do pai uma bicicleta verde e amarela. Na escola, não perdoaram:


— Lá vem o papagaio!


Ele respondia do jeito que sabia: na pancada.


Naquele tempo, ainda não existia a palavra "bullying", mas já existiam apelidos cruéis e crianças dispostas a transformar a vida umas das outras em um inferno. César “Brutus”, esse era seu nome, fazia questão de retribuir na mesma moeda, com juros e correção monetária.


Depois de machucar seriamente um colega, foi expulso da escola. Sumiu das ruas e, pela primeira vez, o bairro conheceu certa tranquilidade. Os gatos agradeceram. Seu Alfredo também.


Veio a pandemia. As ruas ficaram vazias. Um dia correu a notícia: Brutus havia contraído a peste e morrido.


O bairro entristeceu.


Foi curioso. Durante anos, todos reclamaram do gordo. Mas bastou ele desaparecer para virar lembrança.


E assim o maior peste do bairro conseguiu sua última travessura: fez falta justamente às pessoas que não o suportavam. Logo o bairro, que durante anos reclamara dele. Logo as mesmas pessoas que mudavam de calçada quando o viam se aproximando. Logo aqueles que sonhavam com um dia sem suas traquinagens.


A bicicleta verde e amarela nunca mais rodou pelas ruas da cidade.


E foi assim que todos descobriram uma velha verdade: enquanto estava por ali, César Brutus era um problema. Quando deixou de existir, virou saudade.


Como acontece com quase todos os pestes... e com quase todos nós.

 

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
A Taça de Vinho e o Beijo

Samantha chamava atenção por onde passava. Alta, elegante, de cabelos loiros sobre os ombros, olhos esverdeados e sorriso misterioso, tinha uma presença difícil de ignorar. Na multinacional onde atuav

 
 
 
Jogo do Bicho

Esta questão de sorte e azar sempre me intrigou. Tenho o hábito de jogar na Lotofácil há muitos anos, sempre apostando nos mesmos números. Ao longo desse tempo, já fui contemplado diversas vezes com o

 
 
 
O Velório

O dia amanheceu nublado naquele bairro da periferia da cidade. Quem passava pela velha casa de taipa podia enxergar, por entre a ramagem da cerca-viva, o interior da sala simples, onde repousava o cai

 
 
 

Comentários


bottom of page