O Varredor Filósofo
Com seu uniforme laranja e vassoura gasta, Seu Orlando varre as ruas do Centro como quem medita. Não reclama do lixo — entende que ele é parte da cidade, como o barulho, o cheiro e a pressa. Varre com ritmo, com respeito, com filosofia. Já foi professor, já foi bancário, já foi esquecido. Hoje, é guardião da calçada.
Às vezes, enquanto limpa a sujeira dos outros, recita trechos de Drummond:
“No meio do caminho tinha uma pedra...”
“...e no meio da calçada, tinha um papel de bala, uma bituca, um silêncio”.
Os versos se misturam ao som dos passos apressados, ao chiado dos ônibus, ao murmúrio dos vendedores. Poucos escutam. Mas ele segue, como quem planta palavras no asfalto.
Os jovens o ignoram, os adultos o evitam. Alguns desviam como se a vassoura fosse ameaça. Outros jogam lixo no chão logo após ele passar. Seu Orlando não se ofende. Ele entende que a pressa cega, e que o chão é o último lugar onde se olha.
Mas uma vez por semana, uma menina chamada Luana — sempre com livros apertados contra o peito — atravessa a praça e acena para ele. Às vezes, entrega um bilhete com um poema. Ele guarda no bolso do uniforme, como quem coleciona esperança.
Na pausa do meio-dia, Seu Orlando senta no banco da praça. Come um pão com mortadela e lê um trecho de Vidas Secas. Lembra dos tempos em que dava aula de literatura numa escola da zona sul.

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