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Quando a Cidade Perde a Memória

20 de ago.
2 min de leitura

Há dias em que Porto Alegre parece acordar mais leve — não por encanto, mas por ausência. Falta-lhe um pedaço. Um silêncio estranho paira onde antes havia um casarão de janelas altas, um sobrado de azulejos portugueses, um muro coberto de heras que testemunhou risos, brigas, encontros e despedidas. 


A cada demolição, a cidade emagrece, mas não de forma saudável: perde massa histórica, perde identidade, perde alma.


O estrondo das máquinas não é apenas ruído urbano; é uma espécie de luto metálico. O concreto que cai não é só concreto — são lembranças que se pulverizam no ar, como se a poeira carregasse consigo histórias que ninguém mais contará. E o pior é que tudo isso acontece sob o olhar cúmplice de legislações tortuosas, pareceres obscuros, autorizações que surgem como mágica, sempre a favor da pressa, nunca da preservação.


A modernização, palavra tão bonita quando usada com cuidado, aqui vira desculpa. Especulação imobiliária se veste de progresso, mas seu perfume é o da pressa e do lucro.


No lugar de um casarão centenário, ergue-se um prédio de vidro que reflete o céu, mas não reflete a cidade. Porque para refletir a cidade é preciso conhecê-la — e esses novos gigantes não conhecem nada além de seus próprios andares.


Cada vez que vejo tombar um velho casarão, dói. Dói como se arrancassem um fio da minha própria memória. Como se um pedaço de mim fosse sendo apagado junto com aquelas paredes. A visão fica borrada — não só pelos olhos marejados, mas porque o horizonte vai se tornando indistinto, igual, repetitivo. Nada resta para as gerações futuras além de fotografias amareladas, relatos dispersos e uma saudade que elas nem saberão de onde vem.


A "Mui Valerosa Porto dos Casais", que resistiu a enchentes, guerras, intempéries e descasos, agora sucumbe ao inimigo mais sorrateiro: o esquecimento autorizado. E o esquecimento, quando institucionalizado, é devastador.


Talvez, no futuro, quando tudo for vidro, aço e concreto, alguém pergunte: “Como era antes?” E talvez a resposta venha não de um livro, não de um prédio preservado, mas de uma inteligência artificial tentando reconstruir digitalmente aquilo que deixamos destruir fisicamente. Uma ironia amarga: depender de máquinas para lembrar aquilo que máquinas ajudaram a apagar.


E eu, que caminho pelas ruas tentando resgatar fragmentos do que já foi, sigo com a sensação de que cada demolição é também uma amputação. A cidade perde a memória. E nós perdemos junto com ela.

 
 
 

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