São Jorge: Guardião das Batalhas Que Nunca Cessam
Desde menino, antes mesmo de entender o peso das palavras ou o sentido das crenças, eu já convivia com a figura imponente de um cavaleiro que parecia vigiar a casa inteira. São Jorge — montado em seu cavalo branco, lança firme, dragão aos pés — era mais do que um santo. Era um guardião silencioso, desses que não precisam falar para que a gente sinta a presença.
Na parede da sala, pendurado um pouco torto, vivia um quadro já desbotado pelo tempo. Minha mãe o tratava como relíquia. Ao lado dele, sempre repousava uma palma benta do Domingo de Ramos, guardada com o mesmo cuidado com que se protege um segredo antigo. Ela dizia que aquilo afastava maus olhados, invejas, sombras que às vezes rondam a vida da gente sem pedir licença.
E quando o céu escurecia de repente, quando trovões rasgavam o silêncio e os relâmpagos iluminavam nossa casa humilde, lá ia minha mãe — firme, devota, corajosa — fazer sua prece ao guerreiro. Era bonito de ver: enquanto o mundo lá fora parecia desabar, ela encontrava abrigo naquela imagem desbotada. Pedia proteção, pedia calma, pedia força. E, de algum modo, tudo se aquietava.
Naquele tempo, quase toda casa tinha um São Jorge. Talvez ainda tenha. Talvez porque, no fundo, todos nós precisamos de um cavaleiro que nos lembre que o mal — seja ele qual for — pode ser enfrentado. Que a vida, mesmo dura, tem seus guardiões. Que a coragem existe, mesmo quando a gente duvida.
Hoje, tantos anos depois da minha juventude, percebo que continuo recorrendo ao mesmo cavaleiro. Não mais por medo dos trovões, mas pelos outros temporais que a vida inventa. Peço proteção para mim, para minha família, para os amigos, e para esse mundo que anda precisando de luz, de espada erguida, de esperança.
Porque São Jorge, mais do que um santo, é um símbolo: o da luta que nunca termina, mas que também nunca nos encontra sozinhos.
Salve São Jorge.
Salve o cavaleiro que atravessa gerações.
Salve a coragem que ele desperta em nós.

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